09 de Novembro de 2009
O pequi e a ciência
O pequi e a ciência |
Fonte/Foto: Marcial Leossi
|
|
|
|
O engenheiro agrônomo Sebastião Pedro observa amostra de planta do pequi Gilberto G. Pereira O pequi é o fruto mais tradicional do cerrado brasileiro. Mas o avanço das lavouras comerciais como soja, milho, algodão e cana-de-açúcar não promete um futuro auspicioso para essa planta nativa. Por ser mais abundante nas áreas de chapadas, exatamente onde as culturas de mercado avançam muito rápido, o pequi está cada vez mais difícil de ser encontrado, principalmente em Goiás. Para diminuir o impacto negativo sobre ele, preservando-o e explorando a potencialidade de sua produção, um grupo de pesquisadores da Embrapa Cerrados, com sede no Distrito Federal, começou a aplicar novas técnicas de multiplicação do pequi por meio das células e das sementes. Essa história se desdobra na possibilidade de ganhos tanto para a natureza quanto para a economia. De acordo com o engenheiro agrônomo da Embrapa Cerrado, Sebastião Pedro da Silva Neto, serão utilizadas três técnicas de propagação biotecnológica: germinação, organogênese e embriogênese somática. “O pequiseiro tem muita dificuldade em propagar por sementes até mesmo na Natureza, porque tem problemas de dormência. Uma porcentagem muito baixa consegue germinar e se transformar em planta adulta. Por isso demos início a esse projeto de propagação artificial”, diz. O projeto, que começou em outubro deste ano, quer atingir dois objetivos. Um deles é viabilizar o uso do pequi em larga escala para a produção de biodiesel, sem interferir na coleta para fins alimentares e de indústrias como a farmacêutica e a cosmética. A outra preocupação da Embrapa é mais ecológica. Segundo Silva Neto, com esse trabalho de reprodução, além do melhoramento genético, é preciso ter em mente a multiplicação dos diversos tipos de pequi, sem levar em conta a qualidade comercial de seus frutos. “Só assim, a diversidade da espécie será preservada”, diz. Antes de chegarem às três técnicas escolhidas, os pesquisadores tentaram aplicar o sistema de propagação vegetativa, como a enxertia (semelhante ao que se usa para laranjeiras, mangas e outras plantações). Mas, embora seja um procedimento muito bom para várias espécies, não deu certo na multiplicação do pequiseiro. Depois os pesquisadores recorreram ao enraizamento de estaca. Também não foram bem-sucedidos. Foi nesse ponto de esforço de salvar o pequi, vislumbrando a utilização do fruto como um tipo de ouro amarelo, que a Embrapa passou a buscar novas técnicas, com tubetes de ensaio e gelatina transparente como material. Silva Neto explica que a dormência da semente é o grande mistério da reprodução do pequi pelos meios naturais. Isso porque há componentes químicos na semente, como o fenóide, que muitas vezes inibem sua germinação. “Ainda não sabemos exatamente porque a inibição acontece”, diz. A planta floresce e frutifica na estação chuvosa, entre outubro e fevereiro, mas qualquer falta de água retarda o ciclo. Quando essa situação acontece, a Natureza se defende colocando algumas substâncias para também retardar a germinação da semente, que fica ali, adormecida até estar pronta para produzir uma nova planta. “O problema é que quando a gente pega a semente e tenta fazer o mesmo que o processo natural, nada acontece”, diz. Técnicas Para elucidar o problema é que os pesquisadores decidiram investir na técnica da germinação, observando de perto por quais processos as sementes passam e como elas se comportam até germinarem. Com esse procedimento, outro objetivo é acelerar o próprio processo de reprodução, ao descobrir a causa da dormência. Nessa técnica, as sementes são coletadas em várias idades (a partir do momento em que é fecundada sexualmente pelo pólen). “O embrião gerado por fecundação natural, vai ficar dentro de uma semente. Queremos saber a partir de quando essa semente vai ficar viável reprodutivamente”, diz o engenheiro. Segundo Silva Neto, na germinação in vitro, serão utilizados macro e micro nutrientes, vitaminas, minerais, reguladores de crescimento (hormônios em pequenas quantidades) para ajudar a gerar folhas, raízes e outros órgãos depois de a semente vingar. De acordo com o pesquisador, esta é a pesquisa mais simples das três. A principal vantagem dessa técnica é a de continuar trazendo à tona a diversidade da espécie. A desvantagem está ligada a isso também, ou seja, a planta que nascer será resultado de um cruzamento entre duas outras plantas, que não passaram por nenhum processo de melhoramento genético. Paralelamente à técnica de germinação, os pesquisadores estão desenvolvendo outro projeto chamado de organogênese, em que serão estudados tecidos da planta do pequi. “Pode ser um pedaço de folha, uma ponta de raiz, qualquer coisa. Sabemos que vários tecidos têm condições de se regenerar e se transformar numa planta completa”, diz Silva Neto. Segundo ele, a técnica consiste em induzir um tecido qualquer a se transformar numa planta completa. Será uma cópia exata da matriz que der origem ao novo pequizinho, com a carga genética idêntica. Ou seja, um tipo de clonagem, mais ou menos o que acontece na reprodução a partir de células-tronco. Outro tipo de clone do pequi é a pesquisa com a técnica de embriogênese somática, a mais sofisticada das três, e também a que poderá ser a menina dos olhos do mercado, pois faz gerar as melhores plantas possíveis. Seu sistema é parecido com o da organogênese, com a diferença de que um tecido qualquer da planta será utilizado para fecundar a semente. Neste caso, será induzido o aparecimento de um embrião sem haver cruzamento sexual entre duas plantas. Segundo o engenheiro, a técnica da embriogenese somática permite a cópia idêntica daquilo que a natureza faz, mas sem haver a fecundação. É somático porque não são células reprodutivas. “O órgão reprodutivo é a flor, dentro da qual ocorre a fecundação. O que vamos fazer é pegar um tecido qualquer do pequi e fecundar a semente com ele”, diz. A complexidade dessa técnica, que até agora é a menos desenvolvida, será compensada pelo seu retorno eficiente. Segundo Silva Neto, enquanto as outras envolvem mão-de-obra e tempo em sua execução, esta se automultiplica numa quantidade muito alta. Genético X espécie O uso das três técnicas na reprodução do pequi tem focos diferentes. O processo de germinação, por exemplo, servirá para a conservação das espécies, mais do que ao interesse comercial, porque ela não garante os melhores frutos, conforme já foi dito. Sua principal função é permitir a coleta de amostras de pequi em vários pontos do cerrado, conservando, a partir daí, todas as características genéticas da planta. Segundo Silva Neto, que é especialista na área de cultura de tecidos vegetais, com Ph.D. em biotecnologia agrícola, aos olhos de quem está distante da realidade do campo, pode parecer uma preocupação excessiva, mas o fato é que a disputa pelo território cultivável do cerrado está cada vez mais acirrada. Uma vez que o pequi só existe nesse bioma, onde hoje é o principal cenário do agronegócio com cerca de 50% da produção agrícola nacional, com a tendência de aumentar, não dá para esperar a planta entrar na lista de extinção. De acordo com o engenheiro, ainda não existe um número que indique a ameaça de extinção. “Mas a maneira como o cerrado vem sendo dominado pelas culturas comerciais, não vai demorar muito para, não só o pequiseiro, mas também outras espécies nativas do cerrado começarem a desaparecer da vegetação nativa”, avalia. O alerta do pesquisador é uma constante na imprensa. Os estudiosos sabem que é uma questão de concorrência pelo espaço. O problema é que nem mesmo as legislações que procuram proteger a flora e a fauna do cerrado contemplam a proteção do pequi. Silva Neto diz que atualmente a legislação ambiental preserva 20% do bioma, mas são leis que estão ligadas à proteção de mananciais hídricos, em áreas mais baixas do cerrado. Segundo ele, o pequiseiro não ocorre nessa parte protegida. “Onde existe reserva, não existe quase pequiseiro. Ele está nas chapadas altas, onde o interesse da agricultura empresarial também é maior”, observa. Se a técnica de germinação procura a conservação da espécie do pequi, as outras duas pesquisas vão realizar um trabalho pensando no melhoramento genético. Neste sentido, a organogênese e a embriogênese serão mais interessantes. O processo de melhoramento vai reproduzir plantas que já são conhecidas e que têm algum valor agregado. Ou seja, para fins alimentícios, serão cultivadas aquelas de melhor produção por hectare, que dão frutos com mais polpas e com mais teor de vitaminas. No caso do biocombustível, além da boa produtividade, a seleção vai procurar as plantas que dão frutos com mais óleo. Pesquisas para a preservação Todos esses trabalhos já têm prazo de conclusão. Os resultados estão previstos para dois anos, ou seja, para o final de 2011. Se forem bem-sucedidas, as técnicas vão ser aplicadas por várias empresas da iniciativa privada. A ideia é esta. A Embrapa realiza todo o trabalho de pesquisa e depois repassa o conhecimento para a produção em larga escala. “A partir daí, toda a sociedade se beneficia, porque a produção do pequi aumenta”, diz Sebastião Pedro da Silva Neto, engenheiro agrônomo da Embrapa Cerrado. Apesar de essas técnicas de propagação artificial do pequi serem recentes na Embrapa, Silva Neto diz que o trabalho da empresa é de longa data, vem desde 1994, com a seleção das plantas. “Esse processo já realizado facilita muito nossa tarefa, e por isso poderemos obter os resultados em 24 meses”, comenta. O discurso da importância da pesquisa é simples e direto. O melhoramento genético se faz pela seleção adequada de elementos já existentes na Natureza. Como os métodos convencionais não são eficientes na espécie do pequi, essas técnicas novas têm seu lugar. Segundo o pesquisador, elas serão muito úteis, porque, selecionando os melhores modelos, os mais produtivos, a exploração da espécie, como a coleta predatória, vai diminuir. Domesticação Hoje, toda a produção de pequi é feita de forma predatória. Isso significa que não há reprodução para fins comerciais. Os coletores vão ao cerrado, retiram todos os frutos e vendem. Uma vez que existam variedades melhoradas, haverá um incentivo à produção em larga escala, domesticando a planta e diminuindo o impacto do extrativismo predatório. O esforço da Embrapa no sentido de colocar o pequi num lugar de destaque na produção comercial está diretamente ligado ao valor que o fruto sempre teve na culinária do Centro-Oeste brasileiro e em Minas Gerais. Fazer a iniciativa privada entender isso como algo lucrativo também faz parte desse esforço. Segundo Silva Neto, não há outra maneira de se investir em pesquisa básica, como estas sobre o pequi, a não ser por meio de instituições e empresas públicas. Em poucos lugares do mundo a iniciativa privada investe em pesquisa básica, como nos Estado Unidos e em parte da Europa, onde há tanto verba pública quanto privada. O engenheiro fez seu Ph.D. no Japão, país tradicional em desenvolvimento de pesquisas agrícolas. Segundo ele, lá também grande parte das pesquisas básicas são feitas pela iniciativa do poder público. Só depois da garantia de retorno financeiro é que as corporações vêm do mercado para injetar capital. Tribuna do Planalto |
Outras notícias